quarta-feira, 4 de agosto de 2010

sempre soube

..eu não quis ser medíocre, não. Deus não me deu esse estômago enjoado, essa alergia encantada de vida e esse coração disparado à toa. Eu sempre achei que devia ser especial, que devia ter algum talento.

Eu não quero que a energia negativa me encontre e me enterre. Eu não sei se com ele vai dar certo, da mesma forma que eu não sei se um dia vou ser uma grande médica. Só sei que estou preparada para quebrar a minha cara.

Porque eu posso ser louca, boba e infantil, mas eu não sou medíocre.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Saí sem o celular.

Em dias assim, odeio companhia que não seja a minha quando saio pro píer. Odeio que um caixotinho eletrônico me diga a hora de voltar de lá. Quando voltei ele tava tocando em cima da mesa. Novecentas chamadas perdidas. Tudo dele mesmo. “ahh, pq eu te liguei mil vezes”; “ahh, pq você não tá prestando atenção”; “ahh, pq você tá esquisita hoje.” . E eu lembrando do céu..
ai, tudo de novo:

Lá no píer, eu quis fazer uma promessa. Mas ando muito sem moral comigo pra cumprir as coisas que prometo a mim mesma. Então eu fiz um pedido. É, foi tudo que deu pra fazer hoje. Com a maior cara de pidona, de criança chorona, eu olhei pra todas aquelas pedras gigantes com suas filhotas pedrinhas; e pras ondas implicantes que quebravam nelas e espirravam em mim, como se a tarde já não estivesse gelada o bastante. Mordi os dedos pra parar de bater os dentes e pedi. Por favooor. Céus, ondas, pedras, universo, sistema solar e nervoso.. não me deixem fazer mais isso! Nunca, nunca mais. Que eu nunca mais pense que é uma boa idéia aceitar outro cara assim, igual a todos os outros genéricos mais ou menos e vazios. E achar que tudo bem, pelo menos o espaço dolorido do coração não tá mais vazio. buuurra! Melhor um espaço vazio do que um mal preenchido. Dói mais vezes, mas dói com dignidade. E não pesa a consciência.

Eu fiz a experiência idiota. E fica a descoberta pra posteridade: Não se substitui o excelente apenas por substituir. Se colocar um genérico no lugar, vai continuar sobrando um espaço esquisito. Imitações não fazem efeito muito tempo. Uma semana, ou menos. O que passar disso já é náusea.

Aaai, céus. Não me deixem abaixar o nível por cansaço. Não me deixem deixar de ser chata apenas por conveniência, ou caridade, ou sei lá. E quando eu duvidar disso, me lembre que eu já sei e já conheci tudo o que eu quero. Que imitação não vem com garantia pra gente poder devolver quando cansar. E que se eu tiver mais um pouquinho de paciência não preciso ficar usando falsificados.

“alô, tá me escutando? Tá tudo bem com você hoje?”

aargh, céus.

"Há dias em que adias tudo.."

Há dias que deixei-me exatamente como deixei este blog: entregue.
(entregue) às baratas, às últimas visitas que vinham ver como andava isso aqui, com as últimas esperancinhas de que “vai que ela já saiu do choque e já ta mexendo os dedinhos, né..” Mas chegavam aqui e essas poucas palavras ocas e os muitos silêncios matavam as esperanças sobreviventes e fraquinhas.
Entregue ao ‘dane-se’, ao ‘vai dar nada e, se der, nem ligo mais’. [pensando nisso admito ser mesmo muito perigoso sair andando por aí, atravessar ruas, tomar ônibus, comprar coisas, beijar pessoas, falar com estranhos, voltar pra casa de manhã, passar por pontes ou ir à padaria com o coração doendo. A gente fica pensando que nada que acontecer de errado no mundo pode machucar mais. Nem ser atropelado, acidentado, assaltado, raptado. Nem morrer. Isso é PERIGOSISSIMO. Ministério da saúde devia advertir que sair de casa com o coração doendo é prejudicial à saúde. Mas ficar em casa também é..] e continua doendo tanto que, ai ai , nem sei, nem ligo.
E – incrível! – passou um tempinho. Ou melhor: uns dias miúdos se arrastaram, e, apesar de há muito não poder pensar um pensamento bobo que fosse, percebi algumas coisas: Tomar remédio não passa as dores, mas passa o tempo; não tomar te aproxima do inferno/ A música certa, na hora certa te deixa respirar um pouquinho, ainda que pra isso ela te faça chorar, ou só dormir mesmo/ Às vezes o seu corpo tenta te ajudar doendo em partes diferentes pra desviar a atenção do coração. E às vezes funciona/ Voltar pra casa de bacurau, fedendo a vários tipos de fumaça e álcool, e sem casaco não ajuda em nada; mas também não atrapalha. Às vezes traz problemas diplomáticos e familiares, às vezes traz o precioso sono./ Escrever pode ajudar, mas não conseguir é lamentável/ Estudar alivia. Esvazia parte da mente pra caber as fórmulas mandonas complicadas. i = 1 + a (q - 1). Alivia a consciência, acalma a família e convence os amigos. Próximo assunto: Lei de Snell.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Eu sei, Teddy

Eu sei que não faz sentido nenhum culpar o palhaço por ter me feito rir e ter me encantado, nem o domador de leões por ser o dono do circo, nem o mundo por girar em minúsculas 24 horas e fazer passar os dias, e os dias completarem um mês, e o mês levar o palhaço para a próxima cidade. Tá Teddy, eu sei que tô derretendo meu rímel todo, e que minha bochecha já passou do vermelho, mas pára de pedir pra eu parar de chorar. Pára de dizer que você sabe o quanto tá doendo agora, mas vai passar. Sabe nada, Teddy. Vai passar nunca. Você não faz idéia do quanto dói acordar cedo todos os dias - sábados e feriados, as vezes -, e ter que passar pela pracinha da minha rua. Enorme. Gigante de tão triste. E cada dia parece que a pracinha aumenta, desde que todas as cores, sons de riso e cheiro de açúcar mudaram, junto com o circo e com meu palhaço, pra outra cidade.
Não, Teddy. Vai passar não.. Você fala assim porque eu nao levei você comigo, e você não viu. Sexta, depois sábado e depois domingo. Final de semana, depois o outro. Não viu como eu tava linda de feliz, toda noite trocava meus ingressos por um sorriso + um saquinho de pipoca. Voltava pra casa andando em algodão doce, considerava o preço, e chegava à conclusão de que saía sempre no lucro. Na primeira vez que ele roubou uma maçã do amor pra mim, e eu fiquei com tanto medo da moça ver e brigar comigo, que tava bem frio, mas minha bochecha até esquentou de tão vermelha. E quando ele me viu, ficou me olhando com uns olhos enormes, e riu fácil, como se tivesse escutado uma piada. E depois me colocou o nariz dele, e a gente ficou rindo de como eu, sem maquiagem, parecia muito mais palhaça do que ele.
Na última vez eu não quis maçã, não quis flor e não quis beijo de tinta. Tava com raiva. Faz sentido não, eu sei Teddy. Não posso dizer que não sabia, que ninguém avisou. Você, inclusive, avisou. Mas tava com muita raiva. Dele, de você, de mim até. E ele insistiu, viu. Mas não passava. Tentou esquentar meu nariz, gelar minhas bochecas, tentou me prender pelos cotovelos pra ouvir o final das piadas dele. Tirou até o girassol do bolso e colocou no meu cabelo. Mas nada deu certo. Eu não ri nenhuma vez depois do espetáculo.
Nem vou rir agora tá, Teddy. Me deixa, vai.

domingo, 30 de maio de 2010

último sábado

entre os que não abrem concorrência e os que dão assistência, "eu, com a cara mais lavada, disse: por que não? " (♪)

quarta-feira, 26 de maio de 2010

minha mãe II

difícil ficar no alto do salto 13 e meio, andar, olhar pra frente, sorrir e respirar - tudo ao mesmo tempo.

'tô bem, mãe? tô andando muito feio?'
'tá linda minha filha. Tem nada feio, parece que você nasceu nas passarelas.'

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Quietinha

Voltei todo o caminho sacolejando no ônibus e quase fechei a janela pra espantar as filosofias-de-janela-de-ônibus que sempre chegam ventando frio. Impossível. Não tem como encontrar você e não ficar pensando 50 vezes em cada vírgula depois. E eu já penso muito mais do que devia(...). Encontro você, começa a chover e a gente sai correndo. ‘É bom que você fica mais’. ‘aham, tá bom’. ‘Fica. Fica sim, sua desconfiada. Fica que eu te levo nas costas e vou te explicar como se faz pra não cair nunca mais.’
Dito e feito.
Me pegou colo, acalmou meu cabelo do vento estressado, acalmou meu soluço, e eu tive certeza de que tinha 6 anos e nem era mais tão alta. Tirou da minha boca os dedos que eu mordia e disse ‘agora chega, neném. Agora acabou o show, tá’. Disse que podia parecer incrível, mas eu não era a única nem a última a sair correndo pro lado errado e bater a cabeça, e cair sentada, e chorar até ficar cansada, e depois resmungar soluçando e mordendo os dedos. Disse que até ele – veja bem, porque isso também pode parecer incrível, mas até ele! – já correu pra saída achando que era entrada. Disse que não precisava ficar desesperada, porque ele já viu meu filme, e meu final vai dar certo. Aconteceu com ele, vai acontecer comigo, e continuar acontecendo com os outros depois. Parece clichê, parece. Mas ele tá sempre tão certo, que até dizendo um absurdo eu só escutei quietinha. E parece que escutou meu pensamento de novo, porque nessa horinha falou que sabia que apesar de estar certo, sabia que não estava me convencendo. Mas que isso é bom. Que eu só to desesperadinha porque meu lugar não é assim, no chão, que já já eu volto por cima, e fico perto dele. E shhh.. e fica quietinha que eu to sempre certo. Afinal, todos os anos acontece com alguém, acontece com alguns. Pra quê pensar que não com você, e não bem rápido? Fica quietinha e dá cá um beijo, dá.